Antigo Casarão Morumbi vira Centro Cultural | PiniWeb

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Antigo Casarão Morumbi vira Centro Cultural

25/Janeiro/1999
Morumbi
Restauração/Reforma
Warchavchik
Reinaugurada no último dia dezoito de janeiro, a Casa da Fazenda do Morumbi pode servir como um exemplo de obra de restauração que dá ao edifício um uso moderno. Muito antiga - foi construída em 1813 e reformada nos anos quarenta, pelo arquiteto Gregori Warchavchik - a casa, depois de dois anos em obras, volta a mostrar a imagem dos registros históricos e irá servir como centro cultural e sede da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História. O edifício estava em péssimo estado de conservação, devido às infiltrações de água no telhado que ameaçavam as paredes de taipa. A reforma garantiu a perenidade do edifício e as adaptações internas o tornaram adequado às novas utilizações. Ali, haverá galerias de exposição de arte, música e um restaurante de comida típica paulistana com forno da época e tudo.
A restauração tomou por base a reforma realizada por Warchavchik. Ele utilizou o concreto como base de trabalho, o mesmo procedimento adotado agora pelo engenheiro Antonio Gorios, que coordenou a reforma. Warchavchik, além de reforçar vários pontos da casa com aquele material (em alguns pontos usou até vigas de aço), substituiu todas as paredes de taipa de pilão do segundo andar por alvenaria convencional e ergueu os arcos frontais que hoje assinalam a fachada. O trabalho de Gorios - com a consultoria da empresa Zeeni Reis - foi o de reforçar a estrutura da casa e recuperar o aspecto externo original.
Fundações - Isso foi possível porque as fundações estavam intactas, tendo resistido bem ao mais de um século de existência e aos cerca de vinte anos em que a casa permaneceu abandonada. Feitas de blocos de barro assentados uns sobre os outros na própria terra, as fundações ganharam agora um reforço de concreto, com pilares em lugares estratégicos, para garantir maior sobrevida. Outra providência de Gorios foi colocar vigamento à altura do piso intermediário (sem demolir a casa) e colunas de concreto na estrutura. "Esse reforço estrutural era necessário, pois a construção é muito antiga e a previsão é de uma vida longa", afirma Gorios.
O engenheiro providenciou também a reforma de outros elementos construtivos. Embora as tesouras e terças de maçaranduba do telhado tenham sido mantidas (as tesouras vão de uma parede a outra), os caibros e ripas tiveram de ser trocados. As telhas também foram substituídas por materiais fabricados sob encomenda, em Santa Catarina, dentro das dimensões e estilo da época. O mesmo aconteceu com o assoalho e o piso, que estavam bastante danificados. As esquadrias de madeira de pinho-de-riga - portas e janelas, que também servem de estrutura para a casa -, assim como o balcão da varanda e a escada para o segundo andar, puderam ser recuperados. Esses elementos reforçam a linguagem colonial da Casa da Fazenda.
No acabamento externo foi usada uma técnica de revestimento com barro desenvolvida pelo especialista pernambucano Samuel Luciano da Silva. Com um tom entre o vermelho e o grená, as paredes receberam a argamassa (areia, cal e barro), de modo a imitar a cor e a consistência originais do imóvel. A mesma técnica foi empregada nas paredes internas. A cozinha foi demolida e reconstruída no mesmo local. Os banheiros foram construídos com mármore italiano e com portas envelhecidas de modo artificial. O teto do salão do térreo foi pintado pelo artista Carlos Machado, com motivos que retratam a tapeçaria de uma porta de sacristia de 1850. Adaptações foram feitas também na senzala, que teve uma passagem aberta mas manteve o teto trançado e as janelas com grades de ferro.
Detalhes - A decoração, o paisagismo e a iluminação também tiveram tratamento especial. A decoração de interiores, a cargo de Gilberto Pacheco, resgatou os estilos inglês e francês da época, com poltronas de couro, tecidos e móveis de influência napoleônica. Lúcia Corradini trabalhou com a fauna e a flora brasileiras nas mesas da varanda. O paisagista Cláudio Perissinotto e a arquiteta Mariana Cechini tentaram reproduzir o jardim de uma casa
de fazenda do Brasil colonial. Foram mantidas as jabuticabeiras, abacateiros e mangueiras que existiam no local, algumas centenárias, assim como os ipês, jacarandás, resedás e magnólias, que compõem a vegetação de médio porte. Foram plantadas, ainda, palmeiras e implantadas flores de diversos tipos, como azaléias cor-de-rosa. Jasmineiros e moréias cercam os muros da casa e revestem-nos de branco. O conjunto também é todo cercado de heras africanas, trepadeiras e jasmins-carolinas.
A iluminação recebeu vários tipos de lâmpada. Instaladas pela Spina, as lâmpadas são de vários tipos: das dicróicas às fluorescentes, às lâmpadas de mercúrio. Na parte externa, há luminárias "escondidas" e enterradas. Dentro da casa, a Spina tentou recuperar o tipo de iluminação do começo do século (claro que com maior intensidade de luz), com lustres e arandelas clássicas. Foram instaladas ainda luminárias removíveis nas salas de exposição e na senzala. O trabalho maior, contudo, foi a construção de dezenove postes idênticos aos quatro do início do século que existem no casarão. Esses postes antigos também foram reformados. "Fizemos as réplicas das lanternas e, em vez de lâmpadas de gás, colocamos lâmpadas fluorescentes", diz Paulo Carneiro Spina, diretor da empresa.
Os planos da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História - uma entidade fundada em 1910, com cerca de dois mil membros - não param nessa reforma, porém. Além de dotar a casa de galerias de exposições de artes, bar e restaurante brasileiros, antigüi-dades, espaços paisagísticos e museu colo-nial, a entidade pretende ainda construir um teatro para quatrocentas pessoas, no local. A obra deve consumir outro um milhão e meio e poderá ser financiada via Lei Rouanet

Relíquia construtiva
Empresas participaram da obra com patrocínio ou por cessão de materiais de construção
A origem da Casa da Fazenda dá bem a dimensão da importância histórica do edifício, que supera, inclusive, o valor arquitetônico - que não pode ser subestimado. Representa uma relíquia do século passado. O terreno foi presente de Dom João VI ao produtor inglês de chá John Maxwell Rudge, que se encarregou de transformar a região do Morumbi, zona sul de São Paulo, na primeira fazenda de cultivo da commodity no Brasil. Depois dele, famílias tradicionais habitaram a casa, como a Diederichsen, Müller e Trasmontano, entre outras. Os últimos moradores foram o casal Francisco e Maria José de Carvalho Ramos, que viveram ali durante quatro anos, até 1978.
Hoje, propriedade da Companhia Mineira de Seguros, cedida por comodato de vinte anos à Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, a Casa da Fazenda necessitou de três milhões e meio de dólares para as obras de reforma. Parte da verba usada na restauração do imóvel foi angariada da iniciativa privada, pela Lei Rouanet. Muitas empresas participaram da obra ou via esse patrocínio - caso da Wickbold - ou cedendo materiais de construção, como a Incepa, Reiplas e Fama.
Taipa - A casa fica numa região arborizada da avenida Morumbi e tem 1.235 metros quadrados de área construída. Ocupa um terreno de cerca de oito mil metros quadrados. A edificação, de dois andares, foi executada com paredes de taipa de pilão - antiga técnica de construção feita com barro e estrutura de madeira - o que conferiu às paredes uma espessura de até dois metros (em contraste com as atuais paredes entre dez e vinte e cinco centímetros. Possui uma área anexa, quase um porão, que servia de senzala e é toda revestida de pedra. Ali foi implantado um Museu Colonial. Há, ainda, uma grande varanda no segundo andar do casarão.
"Tentamos preservar todas as características externas do edifício", diz Michel Chelala, diretor da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, que idealizou o projeto junto com outro diretor da entidade, Roberto Oropallo (o projeto arquitetônico é de Elsa Wolthers). "Quem visitar a casa vai mergulhar numa típica casa de fazenda do século passado." De fato, a obra tentou
resgatar do modo mais fiel possível o antigo casarão, tão representativo que chegou a servir de cenário para várias produções cinematográficas, como "Sinhá-Moça", rodado em 1952, "A Moreninha" e "Beto Rockefeller" (o filme).
Fazenda-modelo
Antigo casarão do Morumbi, em São Paulo, passa por reforma e vira centro cultural
Alberto Mawakdiye
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