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Arquitetura da paisagem

7/Junho/2004
Uma das primeiras especialistas em paisagismo no Brasil, Rosa Kliass saiu da faculdade e abriu seu caminho à faca. Mesmo depois de quase 50 anos de experiência, e uma infinidade de planos e
projetos em diferentes escalas, continua com a mesma paixão que a leva por todo o
Brasil a transformar paisagem em arte



Quando Rosa Grena Kliass se formou em 1955 pela FAUUSP, não havia um campo profissional esperando por ela do outro lado dos portões, mas sua turma foi a primeira a receber aulas de paisagismo na faculdade. Do professor Roberto Coelho Cardoso, arquiteto recém-chegado da Califórnia, adquiriu a linguagem do desenho urbano.

De Roberto Burle Marx, mestre indiscutível, captou a intuição da arte. Então inventou. Fez jardins de residências, foi buscar o poder público e, a partir de 1966, trabalhou no desenho de parques e praças no que foi o primeiro plano paisagístico de São Paulo.

Sempre pioneira, na década de 70, já com o escritório atual, foi a primeira arquiteta paisagista a projetar os térreos dos edifícios após a liberação dos espaços para uso comum. Em 1973, sai de seu escritório o projeto de urbanização da avenida Paulista, em São Paulo, que hoje já está em fase de reurbanização. Em paralelo aos trabalhos do escritório, Rosa Kliass começou a luta pela capacitação e valorização dos paisagistas.

Em 1976 fundou a ABAP - Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas, como resposta a uma solicitação da IFLA (Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas). De lá para cá foi presidente do conselho diretivo da ABAP por cinco vezes e vice-presidente da região ocidental (Américas) da IFLA. Dentro do objetivo de formar profissionais, participou de atividades docentes em faculdades de todo o País.

Proprietária de vários prêmios nacionais e internacionais, em 1981 Rosa Kliass venceu o concurso de reubarnização do Vale do Anhangabaú, junto com Jorge Wilheim. Com todo esse longo currículo, Rosa ainda devota dedicação especial a planos de revitalização da paisagem como os recém-desenvolvidos no Norte do País. De São Luís a Macapá, participou como autora e consultora de uma série de projetos paisagísticos de revitalização de monumentos históricos e criação de parques, além de desenvolver planos urbanísticos diretores. "Se existissem mais dez apaixonados como eu, a história do paisagismo no Brasil seria bem diferente", garante.


Para Rosa Grena Kliass, o paisagismo brasileiro se deve a dois Robertos: Roberto Coelho Cardoso, seu professor na FAUUSP, e Roberto Burle Marx, a quem considera o maior paisagista do século. Abaixo, o Parque Metropolitano do Abaeté, em Salvaldor (no centro), a avenida Paulista, em São Paulo (à esquerda), e o Parque da Residência, em Belém, três obras que contaram com o talento da arquiteta


AU - Nos últimos anos a senhora vem desenvolvendo projetos paisagísticos de revitalização de sítios históricos e criação de parques em cidades do Norte do país. Só em Belém já são mais de quatro projetos. Como começaram esses trabalhos?

Rosa Grena Kliass - Acredito muito no processo. Inicialmente fomos chamados pela Infraero para desenvolver o projeto de paisagismo do aeroporto de Belém. A Secretaria dos Transportes aproveitou minha visita e solicitou um estudo para a avenida de ligação entre o Centro da cidade e o aeroporto.

E nessa reunião estava presente o secretário de cultura do Estado, Paulo Chaves, que por sinal é arquiteto. O aeroporto ficou pronto, a avenida foi um tanto descaracterizada, mas desse primeiro contato com a secretaria da cultura nasceram vários projetos em Belém. Um dos primeiros trabalhos foi o Parque da Residência, um antigo palacete do começo do século 20 e casa de governadores desativada, que teve o jardim transformado em parque público. Logo depois começou o Feliz Lusitânia.

AU - O feliz Lusitânia é um grande conjunto arquitetônico de Belém com vários edifícios históricos. De que maneira o paisagismo se integra no conjunto?

Rosa Grena Kliass - Começamos pelos pátios internos do Museu de Arte Sacra transformados em espaços de eventos ao ar livre. Depois passamos ao Forte do Castelo, a menos preservada das edificações, e criamos um passeio que permitiu a vista da cidade e da Praça das Armas. Na Casa das Onze Janelas, antigo hospital militar ao lado do forte, foi definida uma praça pela demolição de dois armazéns do exército, o que permitiu o acesso à paisagem do rio. Todos esses espaços são interligados por um caminho, o Passeio de Beira-Rio.

AU - Existem outros projetos em Belém que também são iniciativas da Secretaria da Cultura...

Rosa Grena Kliass - Graças ao esforço e vontade política do secretário Paulo Chaves. A partir da finalização do projeto do Parque da Residência surgiu a idéia de se criar um parque naturalístico, um espaço onde são abrigadas espécies de árvores e plantas nativas da região. A área destinada à criação do parque era basicamente composta de aterro e mato raso, à beira do rio. No local estão sendo implantados padrões da vegetação nativa do Estado do Pará que englobam três grandes regiões: a mata de terra virgem, de várzea e os campos. Trilhas interpretativas permitirão aos visitantes conhecer as espécies.

A previsão é que seja inaugurado ainda este ano. Além da vegetação, alguns equipamentos estão previstos, como um borboletário, um viveiro de pássaros e um restaurante. Completam o rol de projetos a Estação das Docas e a criação de um centro de gemologia em um antigo convento adaptado em prisão (São José Liberto e o Pólo Joalheiro).

AU - Ainda no norte do país a senhora participou de um grande plano diretor em São Luís do Maranhão. Como foi a elaboração desse projeto?

Rosa Grena Kliass - Em São Luís definimos diretrizes que devem anteceder a elaboração de um Plano Diretor, que é o Plano da Paisagem Urbana. Fomos contratados pela prefeitura em 2003 e levamos cerca de um ano para finalizar o projeto. O plano da paisagem trata da base da cidade, do suporte para a urbanização. É um Plano Diretor paisagístico.
AU - Como funciona um planejamento na escala da paisagem?

Rosa Grena Kliass - Nós vamos buscar todas as características físicas possíveis da região-alvo, como tipo de solo e drenagem, vegetação, clima, mapa de alturas e declividades. Também identificamos as legislações de uso e ocupação do solo, as restrições ambientais e o tipo de ocupação irregular existente, padrão de ocupação e tipo de equipamentos. De posse de todas essas informações simulamos a hipótese de a cidade ser toda povoada de acordo com o tipo de zoneamento existente. Agora o zoneamento está sendo revisto devido a um resultado não satisfatório. Além disso propusemos planos e intervenções dentro de cada zona e um plano de áreas verdes para integrar todas as áreas. O plano da paisagem é um grande e indispensável diagnóstico.

AU - A cidade de São Paulo já foi alvo de diversos planos diretores, mas um plano da paisagem é novidade. Já foi proposta para a cidade a elaboração de um projeto dessa natureza?

Rosa Grena Kliass - Se São Paulo tivesse recebido um plano da paisagem nós teríamos certamente o maior parque linear urbano do mundo. Na década de 60, os vales do Tietê e Pinheiros ainda eram terra de várzea sem valor. Se um plano paisagístico tivesse impedido a construção nas marginais poderíamos evitar inundações e gastos milionários de canalização dessas avenidas. No lugar poderíamos ter tido um parque de 50 km de comprimento, com avenidas localizadas fora das marginais. A metodologia do planejamento paisagístico propicia desenvolvimento urbano, social, cultural e econômico.

AU - A senhora já foi contratada pela Prefeitura de São Paulo para desenvolver projetos de parques e praças...

Rosa Grena Kliass - Meu primeiro contrato foi em 1966, com o projeto do Parque do Morumbi, obviamente não executado. Logo depois, eu e Miranda Magnoli, minha sócia na época, desenvolvemos um plano de áreas verdes e recreação do município de São Paulo. Foi o primeiro plano paisagístico da cidade, muito pouco realizado. Juntamente com esse plano nós fizemos 44 projetos de praças, para a prefeitura de Faria Lima. Novamente poucas praças foram realmente executadas, as mais famosas são as do Pôr-do-Sol e Benedito Calixto.

AU - A senhora também trabalhou na Secretaria de Planejamento com Jorge Wilheim, em 1984, no Governo Mário Covas. A idéia de um plano da paisagem não poderia ter sido introduzida então?

Rosa Grena Kliass - Em 1984 nós fizemos vários planos de paisagem para as administrações regionais. Os planos das subprefeituras em fase de elaboração já foram feitos há 20 anos. Foi produzido um plano urbanístico de suporte e vários escritórios de arquitetura foram chamados para desenvolver projetos específicos. Nada saiu do papel. Está tudo arquivado em livros.

AU - A que se deve essa Cultura comum no poder público de arquivar projetos de desenho do espaço? Falta dinheiro ou vontade política?

Rosa Grena Kliass - Quando você pensa que, em uma cidade como São Paulo, é possível contar nos dedos o número de arquitetos paisagistas no departamento de parques e áreas verdes, você passa a entender o valor político da profissão. O poder público deveria ser o melhor contratante, mas os profissionais ficam nas mãos da iniciativa privada desenhando condomínios, residências de luxo ou shopping centers. Para um projeto ser bem-feito ele precisa de um bom cliente e de uma boa equipe.
O projeto deve ser gerenciado, executado e, acima de tudo, entrar em operação. A Estação das Docas, em Belém, está viva há três anos porque está sendo operacionalizada, e isso devido a Paulo Chaves, um arquiteto com grande vontade política.. Só assim é possível ver os resultados. Mas essa seqüência mágica é muito rara de acontecer...


AU - Mas a falta de valorização da profissão no setor público, principalmente em uma cidade como São Paulo, não é só culpa do cliente. Os profissionais poderiam mudar essa história...

Rosa Grena Kliass - A maneira como o profissional se envolve no projeto pode fazer a diferença. Depende do contratante e do contratado. É um envolvimento político no bom sentido. Mas é perceptível a baixa qualidade da paisagem urbana em São Paulo. A produção é muito pequena, e é pequena porque não há a cultura de projeto e plano paisagísticos. A nossa corporação é muito fraca. Tanto a de arquitetos como a de arquitetos paisagistas. Exemplo disso é o fato de a Prefeitura (de São Paulo) executar 20 CEUs (Centros Educacionais Unificados) e ninguém saber quem é o autor dos projetos! E por quê? Porque foi a Secretaria da Educação quem projetou. Estão fazendo obras, mas não de arquitetos.

Em Barcelona se tropeça em obras e cada uma tem o nome de um arquiteto. Eles são contratados pela prefeitura. Aqui os arquitetos não têm nenhuma força política. Eu perguntei para o diretor do departamento de paisagem urbana de Barcelona, um arquiteto, como conseguiam executar tantas obras de qualidade. É a ditadura dos arquitetos, ele me respondeu. E eu retruquei: a dos bons.

AU - Muitos arquitetos não receberam nenhuma noção de análise da paisagem, mas, ao mesmo tempo, espalham-se pelo país minicursos de paisagismo. Na sua avaliação, é possível que a falta de profissionais treinados para o desenho da paisagem em maior escala e a multiplicação desses cursos tenham banalizado a profissão?

Rosa Grena Kliass - Com certeza. Daí a questão da corporação. Minha luta é antiga. Precisamos formar professores. Quem vai formar o profissional? Hoje já é obrigatória a disciplina de paisagismo nas escolas de arquitetura e encerrou-se o primeiro módulo do primeiro Programa de Capacitação para Professores de Arquitetura Paisagística no Brasil. Isso é muito bom, mas há centenas de escolas em todo o Brasil.

Esse processo poderia ser mais rápido se houvesse vontade política, tanto do setor governamental quanto das corporações. Apesar da falta de regulamentação da profissão, o mercado imobiliário já percebeu que o projeto de paisagismo valoriza o empreendimento. De certa forma abriu-se um campo para o arquiteto paisagista.

AU - Só o arquiteto pode dar forma à paisagem?

Rosa Grena Kliass - Existem três categorias profissionais relacionadas com o desenho do espaço e reconhecidas pela Organização Internacional do Trabalho. O urbanista, o arquiteto, e o arquiteto paisagista. Essa trinca completa a questão do desenho do espaço. Precisa ser arquiteto? Não, desde que o profissional tenha aptidões desenvolvidas para o desenho dos espaços não-construídos. Muitas vezes nem o arquiteto está apto a fazer arquitetura paisagística. Agora, pela minha experiência, é muito mais fácil fazer de um arquiteto um arquiteto paisagista do que ensinar um biólogo ou um agrônomo. Eles não foram treinados no desenho do espaço. Muitos profissionais hoje já saem das faculdades de arquitetura direto para o paisagismo. O número de trabalhos de graduação na área cresceu muito nas universidades.

AU - Como surgiu o paisagismo no Brasil? Burle Marx com certeza foi um dos pioneiros...

Rosa Grena Kliass - A arquitetura paisagística brasileira é devida a dois Robertos e a duas escolas, a paulista e a carioca. Roberto Coelho Cardoso, um americano que foi o primeiro professor de arquitetura paisagística da FAUUSP, em 1952, provocou o início do interesse da Faculdade de Arquitetura pela arquitetura paisagística.

Eu e Miranda (Magnoli) fomos colegas de turma e nos formamos em 1955. Fomos as primeiras a trabalhar a paisagem e até inventamos trabalhos. Essa é a escola paulista, nascida da academia, do Roberto Cardoso. Já a escola carioca nasceu de Burle Marx, um criador espontâneo, o maior paisagista do século no mundo. A escola nasceu dentro do escritório dele e por suas obras. E, obviamente, hoje os projetos brasileiros já incorporaram as duas linhas.

AU - Quais as características principais de cada linha de pensamento?

Rosa Grena Kliass - Roberto Coelho Cardoso seguia a linha californiana de arquitetura paisagística que era a incorporação de toda linha de pensamento estético contemporâneo nos projetos paisagísticos. Nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia, surgiram vários arquitetos paisagistas, pais da arquitetura paisagística moderna, que incorporaram em seus projetos desenhos de Paul Klee, de Mondrian, e criaram uma linguagem voltada para o desenho urbano. O Roberto Coelho Cardoso trouxe essa linha para o Brasil. Agora a linha do Roberto Burle Marx vem de uma criação espontânea de arte, com o enfoque naturalístico da vegetação. É a intuição misturada com a razão.

AU - E sobre o futuro do paisagismo no Brasil: o que há por vir?

Rosa Grena Kliass - Hoje existe um campo extraordinário para ser explorado. Quando eu comecei não existia nada na área. Eu fui a primeira a elaborar projetos de paisagismo para o térreo de edifícios residenciais, na década de 70. Devido a mudanças na legislação sobraram espaços no térreo, que foram transformados em jardins. Fiz cerca de 55 projetos dessa natureza.

Quanto maior o número de arquitetos paisagistas, maior a concorrência, maior o setor, e todo mundo sai ganhando. Os jovens devem contribuir para isso. Infelizmente não existem no Brasil escolas de nível profissional. Ou o interessado procura um curso de pós-graduação fora do Brasil, ou aprende sozinho trabalhando com arquitetos paisagistas mais experientes. Tem que forçar a barra e criar um movimento grande para abrir o campo.


Texto original de Simone Sayegh
AU 121 - abril de 2004
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