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Entrevista Maria Cecília Barbieri Gorski

21/Junho/1999
Entrevista
Maria Cecília Barbieri Gorski
Paisagismo
Formada pela Universidade Mackenzie em 1976, a arquiteta Maria Cecília Barbieri Gorski começou a trabalhar com paisagismo no escritório de Rosa Grena Kliass. Muito interessada em urbanismo, a arquiteta buscou alargar a abrangência da atividade e ingressar no lote urbano. O objetivo ficou mais próximo quando Ciça, como é conhecida no mercado, montou o escritório Barbieri & Gorski em sociedade com o marido, o arquiteto Michel Todel Gorski. "O projeto de paisagismo, no Brasil, ainda é encarado como artigo de luxo, destinado apenas às grandes mansões", afirma. Para a arquiteta, o que falta é a divulgação do trabalho.
Ciça empresta as palavras de Roberto Coelho Cardoso, que introduziu, na década de cinqüenta, a disciplina de paisagismo na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) para definir a atividade: "O papel do projeto paisagístico é conter adequadamente a arquitetura". O arquiteto paisagista teria ainda o dever de "prover conforto e ambiente saudável para as populações urbanas", conforme afirmação feita em 1917 por Henry Vincent Hubbard e Theodora Kimball. Esses pioneiros do paisagismo norte-americano foram discípulos de Frederick Law Olmstead, que projetou o Central Park de Nova York e criou o termo landscape architect, ou arquiteto paisagista, em 1858.
No Brasil, a disciplina só passou a integrar o currículo mínimo obrigatório das faculdades de arquitetura no ano passado. A pressão de mercado tem sido a maior responsável pelo avanço da atividade, em especial nas grandes cidades. "O investidor percebeu que o paisagismo vende o produto", afirma Ciça. Na entrevista a seguir, a arquiteta fala do desenvolvimento da categoria e da própria trajetória profissional, além de discutir o paisagismo nas grandes cidades.

A senhora diz que o paisagismo ganhou força na área imobiliária por pressão do mercado. De fato, os empreendimentos mais simples têm apelado para o paisagismo até nos folhetos publicitários. A abordagem das construtoras em relação ao projeto de paisagismo evoluiu?
O pavimento térreo dos edifícios passou a ser um diferencial. O tratamento dessa área valoriza o produto, torna-o mais vendável que outro similar, na mesma faixa de preço. As construtoras, de forma geral, já têm consciência de que o investimento em paisagismo vale a pena, ainda mais se for considerada a incidência do custo do projeto, sempre muito pequena, no preço final dos prédios. Melhorou também a abordagem das construtoras: antes o paisagista era contratado no final da obra só para colocar a vegetação. Não tínhamos nenhuma participação na definição de pisos, luminárias, implantação e tudo mais. A situação ideal, e os construtores já percebem isso, é que o paisagista esteja presente desde a concepção do anteprojeto de arquitetura, participando da implantação.

Por quê?
Vou dar um exemplo. Há alguns anos, fizemos uma pousada em Caldas Novas, no Estado de Goiás, em parceria com um escritório de arquitetura de Goiânia. Conseguimos implantar cada chalé de forma a poupar as árvores do cerrado. Também pudemos preservar os elementos de topografia do terreno. Isso só foi possível porque participamos da implantação e acompanhamos as outras etapas. Em termos de custo para o investidor, isso não significou nada, mas em termos de qualidade significou muito, pois, quando o empreendimento foi inaugurado, ele já tinha a vegetação formada. Há algum tempo, ao construir um condomínio fechado, as empresas faziam tábula rasa do terreno para depois replantar e definir a topografia. Hoje, sabemos que o custo disso é muito alto. Além disso, uma árvore demora muitos anos para atingir uma altura razoável.

A atuação do seu escritório se concentra em áreas recreacionais?
Temos uma atuação forte nesse segmento. Fizemos o Parque da Mônica em São Paulo e em Curitiba. Fizemos também o Parque do Chico Bento em São Paulo. Ficamos conhecidos por esses parques e encontramos no lazer um nicho de trabalho.

E quanto às cidades? O arquiteto p
aisagista é chamado para opinar no traçado de uma nova avenida ou em novas estações de metrô, por exemplo?
Quando você fala em política urbana no Brasil, a referência sempre é Curitiba. Ali houve uma preocupação de formular uma política de urbanização que independe da gestão do prefeito. Desde a década de setenta, o Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) está pensando e discutindo a cidade, criando uma cultura, uma mentalidade. Esse tipo de trabalho existe em várias cidades desenvolvidas. A Abap (Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas) fez uma viagem há alguns anos para o Canadá para saber como eles trabalham a questão do planejamento paisagístico. Em Vancouver, eles têm uma comissão que pensa as questões da cidade tendo em vista as próximas décadas. Assim, mesmo com a eleição de prefeitos de diferentes partidos, as metas permanecem as mesmas. Veja: a qualidade tem preceitos e parâmetros que independem de partidos.

E o plano diretor?
O Plano Diretor de São Paulo não é discutido com a comunidade e muito menos cumprido. Não há balizamento. Há ainda o problema de caixa da prefeitura. Como não tem dinheiro, a prefeitura tem que contar com a participação da iniciativa privada. Não haveria nenhum problema nisso, caso houvesse um plano a ser seguido. Não se pode admitir que cada um coloque a escultura que bem entender em qualquer lugar, como estão fazendo em uma avenida da escala da Cidade Jardim (importante avenida na zona oeste de São Paulo). Colocaram vasinhos no canteiro central dessa avenida. Isso é inadequado. Eu entendo que deveria haver um fórum para discutir e estabelecer diretrizes para a cidade. Também, no momento em que essas parcerias se realizam, elas têm de apresentar um projeto para ser avaliado e discutido. Barcelona, na Espanha, por exemplo, passou por tratamentos pontuais. Mas havia um encadeamento muito claro. Enfim: é positivo que haja tratamentos pontuais feitos pela iniciativa privada, desde que estejam inseridos em um contexto maior. Há um estrabismo na forma de se pensar as cidades no Brasil.

Como assim?
Veja o exemplo da continuação da avenida Brigadeiro Faria Lima (avenida na zona oeste de São Paulo). Não deixaram um milímetro quadrado para área verde. Também não pensaram no transporte coletivo, privilegiando, de forma exclusiva, o veículo particular. Outro exemplo são as obras de fundo de vale, como as avenidas Aricanduva e Águas Espraiadas (zona leste e sul de São Paulo). Há constantes problemas de enchentes nessas regiões. Não será hora de pensar se esses fundos de vale devem ser canalizados ou se deveriam constituir área de drenagem natural da cidade? Esse sistema logo vai entrar em colapso e a situação na cidade poderá se agravar ainda mais. Isso sem falar em questões mais sutis, como a dos idosos.

Como o paisagismo pode contribuir nessas questões?
No aspecto de locomoção, em especial. É preciso melhorar a condição das calçadas, considerar o piso e a pavimentação. Também há carência de espaços recreacionais para adultos, com verde, água e sombra. Outra coisa: as edificações em geral, seja um cinema, um teatro ou um banco, têm o acesso dificultado por degraus.

A Abap, entidade da qual a senhora foi presidente até março do ano passado (hoje quem ocupa a presidência é o paisagista Benedito Abbud), já se posicionou a esse respeito?
Sim, essa questão urbana tem sido uma batalha da Associação. Percebo que os governantes, de maneira geral, não têm noção da importância de se ter uma equipe multidisciplinar para trabalhar a cidade. Até existe uma vontade política de se fazer isso, independente da visão eleitoreira. Mas as pessoas não têm consciência sobre o que seja um trabalho de paisagismo, desconhecem a abrangência da categoria e, por conseqüência, nada é feito. Existe ainda um outro problema sério: como a profissão não é regulamentada, há muita importação de projetos.

Quem importa projetos de paisagismo?
Na maior parte das vezes, são parques temáticos
e aquáticos. Ao contrário do que acontece com projetos arquitetônicos, que costumam passar por uma tropicalização feita em parceria com um escritório brasileiro, os projetos de paisagismo desses parques são implantados direto, sem adaptação alguma. Aí, uma das principais conseqüências é a falta de sombreamento. Quem já foi a um parque desses sabe que a primeira coisa a fazer é comprar um boné, porque o sol é insuportável. Mas tanto o investidor quanto a população encaram como natural o que é defeito de projeto.

Como a senhora encara iniciativas como o projeto do São Paulo Tower, do empresário Mário Garnero?
Esses megaprojetos causam um impacto muito grande e precisam ser muito bem avalia-dos. Um dos grandes problemas refere-se ao deslocamento das pessoas. Na hora em que se concentra um grande número de pessoas numa determinada localidade, é imprescindível dispor de equipamentos para transportá-las, criar ferramentas para absorver esse impacto. Veja o que aconteceu no sul de Nova York, onde foi feita uma grande intervenção: tudo isso foi pensado dentro de um complexo composto de residências e edifícios comerciais. Há um misto de usos que proporcionou à cidade novas praças, parques, museus etc. Mas, se a coisa não é pensada como um todo, já nasce com problemas. É impossível um elemento que vai concentrar tanta gente não contemplar essa série de problemas. E isso não acontece só no entorno imediato, mas numa área bem mais ampla. No Brasil, padecemos desse problema de atitudes particularizadas. Se a cidade é terra de ninguém, vamos continuar com esse problema para sempre. E o mais grave é que isso não acontece só nas grandes cidades. Também as médias e pequenas estão crescendo dessa maneira desordenada
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