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Projetos casados

23/Novembro/1998
Arquitetura
Entrevista
Marcio Curi e Carlos Azevedo Antunes
A concorrência tem caminhos que o destino desconhece. Foi assim com os arquitetos Marcio Curi e Carlos Azevedo Antunes que, no início deste ano, selaram a união de dois tradicionais escritórios, cada um com quase vinte anos de atuação. Como fazem questão de dizer, "não se trata de uma sociedade mas de uma fusão cem por cento". Mais do que um espaço de produção de projetos, os escritórios de arquitetura têm hoje funções mais amplas do que há alguns anos. As mudanças do mercado e as novas condições impostas por construturas e incorporadoras, num cenário de alta competitividade, vêm exigindo dos escritórios de arquitetura bem mais do que faziam antes. Curi e Antunes perceberam isso e resolveram agir. Inicia-do em 1989, na época em que os dois prestavam serviços para a Encol, o processo de aproximação foi maturando durante vários anos. Juntos, os dois escritório contabilizam uma marca de mais de 2,8 milhões de metros quadrados produzidos. Os portfólios incluem edifícios residenciais, comerciais, flats, indústrias e shopping centers. O objetivo agora é um só: crescer.

Em que momento vocês decidiram pela fusão?
Antunes - Nós nos conhecíamos como concorrentes, prestando serviço para a Encol. Nossas empresas disputavam, de certa forma, uma mesma fatia do mercado imobiliário, apesar de o escritório do Marcio ter uma história na área de projetos racionalizados, enquanto o meu trabalhava um pouco mais com empreendimentos de médio e alto padrão. Mesmo assim, sentimos que os problemas eram os mesmos. O mercado começava a se profissionalizar. Isso exigia dos escritórios maior conhecimento de tecnologia, maior responsabilidade pelo projeto e investimentos em novos equipamentos. De lá para cá, começamos esse diálogo, que culminou com a fusão no início deste ano.

Foi o próprio mercado, então, que contribui para selar a "união"?
Antunes - O mercado se tornou mais competitivo para os nossos clientes. Isso é fato. Os preços começaram a cair e os custos precisavam acompanhar esse quadro. Todas as transformações ocorridas no mundo se refletem no mercado imobiliário. A Encol nos aproximou porque praticava uma filosofia de racionalização que exigia muito mais dedicação. Hoje, nem tanto mas, naquela época, em 1989, as construtoras não agiam dessa forma.

A maneira de elaborar os projetos mudou muito desde aquela época?
Curi - O projeto sempre foi dividido em etapas. Fazia-se um projeto legal na prefeitura, em seguida o empreendimento era vendido e viabilizado. Só então era produzido o projeto executivo da obra. As diferenças entre o projeto legal e o projeto executivo eram enormes. O projeto legal não contemplava itens estruturais, dimensionamentos e utilização de equipamentos, por exemplo. Você incluía a estrutura no projeto e depois surgia uma mudança de vaga na garagem. Com a entrada em vigor do código do consumidor, essas diferenças começaram a diminuir. A Encol, ao contrário, desde aquela época praticava um projeto mais integrado e compatibilizado, muito diferente do que se fazia. No início da construção, a empresa já incorporava a tecnologia construtiva e todos os subsistemas. Era uma filosofia de trabalho em sintonia com a gente.

A entrada dos escritórios estrangeiros no País contribui para agilizar o processo de fusão dos dois escritórios?
Antunes - Fala-se na entrada de escritórios estrangeiros na área de projetos há mais de vinte anos. O problema é que boa parte dos projetos produzidos no País ainda não são grandes e atrativos o suficiente. Existem muitos entraves, mas isso pode ocorrer. Alguns investidores estrangeiros, por exemplo, estão contratando as empresas de projeto lá fora mesmo. É o caso de algumas montadoras de automóveis e outras indústrias, que chegam com os projetos prontos.

O que está mudando na atuação dos escritórios?
Antunes - Os próprios profissionais tendem a mudar. As faculdades ainda formam os arquitetos para que tenham um ateliê próprio depois. Isso vai mudar. Na Inglaterra, Estados Unidos e n
a França, por exemplo, o arquiteto é formado para trabalhar em uma empresa, para fazer uma carreira.
Curi - A tendência é de maior participação hoje em todas as fases de projeto. O arquiteto participa desde o briefing até o atendimento do pós-obra. O espectro de atribuições dos escritórios de arquitetura é muito mais amplo hoje.

O conceito de escritório como apenas produtor de projetos está acabando?
Antunes - O escritório convencional de arquitetura oferecia o projeto e só. Nós resolvemos agir de outra forma. Tem de ser assim. Damos consultoria ao cliente com relação ao mercado imobiliário, participamos da definição do produto e até da escolha de terreno. Para fazer isso é necessário ampliar nosso expertise. É preciso conhecer muito bem a cidade e as características do mercado. Fazer o projeto executivo é apenas mais uma etapa.

A estrutura operacional do escritório mudou muito nesses anos?
Curi - O time mudou de uma maneira assombrosa. Hoje é possível oferecer a apresentação do projeto em um quinto do tempo que você dedicava antes. O computador deu agilidade a essa fase. Num segundo momento, é possível conciliar vários projetos, dar simultaneidade e prever as interferências com precisão muito maior. Antes, se trabalhava em cima de cópias e escalas que dificultavam muito.

A fusão demandou, é claro, uma preparação. Esse foi o projeto mais difícil que vocês executaram?
Antunes - O processo demandou mais de um ano e meio de diálogo. Definimos com antecedência como abordar o mercado e estabelecer a relação com os clientes. Em um primeiro instante, liberamos também as nossas equipes para que fossem se integrando. Houve um trabalho de comunicação que antecedeu a apresentação do projeto. Precisava ficar claro que não se tratava de uma sociedade entre duas pessoas e, sim, uma fusão total dos escritórios.

Como foi a reação das equipes?
Curi - Houve um receio muito grande de desemprego. Foi necessário deixar claro ao pessoal que o objetivo era outro. Queremos crescer. Tivemos de mudar, claro, a equipe administrativa, para que não carregassem vícios de um e de outro escritório. É óbvio que houve também uma economia de escala operacional.

Como vocês vislumbram o mercado para os escritórios de arquitetura?
Antunes - Nós acreditamos que haverá um crescimento de mercado. Há pouco tempo, participamos de uma videocon-ferência promovida pelo consulado americano que aponta nesse sentido. O evento foi patrocinado pela Asbea e pelo American Institute of Architects de São Francisco, para aproximação dos mercados. Participaram também do evento dois dos maiores escritórios americanos. Quando foi feita a pergunta sobre o interesse de se estabelecerem no Brasil, um representante do banco Merryl Linch, que ali nos parecia um estranho no ninho, disse a certa altura que havia muito dinheiro no mundo. Segundo ele, boa parte dos investimentos que se faziam na Ásia passariam para a América Latina. Apesar do atual cenário desfavorável, a tendência deve ser essa, mais cedo ou mais tarde.

Como vocês dividiram as atribuições com a fusão dos escritórios?
Curi - Nós vínhamos fazendo o programa de gestão da qualidade do SindusCon, o que facilitou muito. Caminhamos agora para a certificação. As funções do pessoal estavam mais ou menos esboçadas nos nossos programas. No caso das atribuições minhas e do Carlos, estamos alinhavando isso ainda. O que ficou definido é que não existe um profissional de atendimento e outro de obra. Ambos participam das duas etapas.
Antunes - O mercado é muito personalista ainda. Nós não estamos negando isso. Continuaremos a fazer esse atendimento mas, agora, há dois profissionais nesse papel. Cada um continua atendendo aos clientes da antiga carteira, mas isso não nos impede de revezarmos ou de fazermos esse atendimento na ausência do outro.

Os dois escritórios sempre tiveram uma característica de antecipar tendências de uso de materiais. O que o mercado está incorporando hoje?
Antunes - O uso do dry- w
all deve ser mais intenso e também do PEX. Nós temos dois projetos com o sistema PEX. Com a nova exigência da prefeitura de colocação de medidores de água por apartamento e não mais por condomínio, é preciso rever o uso de materiais em alguns casos. Em vez de uma prumada para cada ambiente das áreas molhadas, você tem agora apenas uma. A distribuição da água será feita por um sistema horizontal, que parte de uma caixa de medição em cada pavimento. O PEX facilita bastante a elaboração desse projeto.

E em matéria de revestimentos, o que o mercado está usando?
Antunes - Há uma oferta muito grande de materiais cerâmicos importados, sobretudo da Espanha e da Itália. Há muitas pedras também sendo importadas desses dois países, que chegam com uma modulação e padronização mais favoráveis aos projetos. Hoje, na área de fachadas existe uma enorme variedade de revestimentos de alumínio, com muitas opções de cores e padrões.

Qual a análise que vocês fazem do mercado imobiliário neste momento?
Curi - A falta de investimentos ainda é grande, mas existe um esboço de regras estabelecidas com a implantação do SFI (Sistema Financeiro Imobiliário). Os bancos estrangeiros que chegam ao País estão disponibilizando várias modalidades de financiamento imobiliário. Não é tarefa do incorporador financiar obras. O mercado está evoluindo nesse sentido. As novas condições abrem boas perspetivas.

As relações do projetista com as construtoras melhoraram?
Antunes - Há uma experimentação em excesso. Várias empresas iniciam o desenvolvimento de um projeto sem saber o que querem. Essa cultura precisa mudar
Carlos Azevedo Antunes e Marcio Curi falam sobre a fusão dos
escritórios e das perspectivas das empresas de projetos
Paulo Kiss
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