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VICTOR REIF

1/Junho/1998
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Victor Reif
Premiado pelo IAB-SP, em 1996, pelo projeto da residência na rua Venezuela e com menção honrosa pelo conjunto de obras na cidade de São Paulo, o arquiteto Victor Reif, natural da Polônia, incorporou ao cenário paulistano obras que refletem sua formação racional-funcionalista e seu olhar estrangeiro.
Formado pela Technische Hochschule Berlim-Charlotemburg, em 1933, atuou em São Paulo nos anos 50 e 60. Sua produção, na maioria residências e prédios residenciais, incorporou à sua visão moderna características da arquitetura paulista muito utilizadas pelos profissionais de então, como casas-pátio e uso de diferentes materiais para a composição da fachada. A característica "introvertida" refere-se à menção feita por Geraldo Ferraz, na análise da residência premiada, em que a caracteriza, "no aspecto (...) funcional-orgânico, com a orientação da vida 'para dentro'". Essa referência pode ser apontada como partido de Reif. Excelente aquarelista, explica que essa matéria-prima "permite criar formas da sua transparência, exige precisão e não admite erros". São palavras que explicam sua personalidade. Admirador das artes em geral e da arquitetura barroca brasileira, exibe em seu ateliê pequena e bem representativa coleção de obras de diversos artistas - alguns amigos - e as suas próprias. Hoje, com 88 anos, Reif é professor de Projeto na FAU-Mackenzie, onde leciona desde 1969.

CESAR AUGUSTUS DE SANTIS AMARAL

A mais marcante manifestação do mo- vimento moderno no Brasil foi, sem dúvida, a Semana de 1922, realizada em São Paulo. A construção da primeira casa modernista, projeto de Gregori Warchavchik, em 1928, é reconhecida como marco inicial da arquitetura moderna brasileira. Porém, é no Rio de Janeiro que o moderno brasileiro ganha destaque e se estabelece com projeção internacional.
Em São Paulo, o movimento moderno se concretiza a partir do final da década de 30, graças a precursores de diferentes vertentes: Rino Levi, que privilegiava o clima e a cidade como fatores para sua arquitetura; Miguel Forte, um dos fundadores do Branco & Preto; Villanova Artigas, que incorporou à arquitetura seu espírito nacionalista e Oswaldo Bratke, pelo estilo e método.
No final da década de 40, o crescimento da cidade e a aceitação da arquitetura moderna por parte da sociedade paulista justificaram investimentos no setor da construção civil. Esse fato atraiu para a cidade arquitetos estrangeiros, legítimos representantes do Moderno, que imigravam da Europa a partir do fim da II Guerra Mundial. Entre eles, Giancarlo Palanti, Lina Bo Bardi, Franz Heep, Daniele Calabi, Bernard Rudofsky, Lucjan Korngold e Victor Reif, como bem lembra Marlene Milan Acayaba no livro "Residências em São Paulo 1947-1975".
Victor Reif nasceu em Przemysl, Polônia, em 24 de outubro de 1909, quando a região pertencia à monarquia austro-húngara. Durante a formação acadêmica, iniciada em 1928 na Escola Técnica de Berlim-Charlotemburgo, Reif absorveu experiências significativas como a da Bauhaus, em Dessau, geradora de um modelo de formação para o ensino da arquitetura, seguido por todas as faculdades da Europa, inclusive a de Berlim. Em 1930, Reif transferiu-se para a Universidade de Darmstadt, berço do jungestil - art nouveau - da Alemanha, onde permaneceu até o final do ano letivo. Esse fato permitiu revalidar na própria Alemanha seu diploma de ginásio obtido na Polônia. Em 31 reintegrou-se à Escola de Berlim onde, ainda aluno, participou da equipe do arquiteto Bruno Taut, colaborando na pesquisa e elaboração do projeto de moradia coletiva mínima. Dois anos depois graduou-se engenheiro-arquiteto pela mesma Technische Hoschule Berlim-Charlotemburg, que exibe, entre seus mais ilustres alunos, Hans Poelzig, Egon Eirmann, Hans Scharoun, Wassili Luckhardt, Erich Mendelshon e Walter Gropius.
Reif permaneceu na Europa até 1951, projetando memoriais, fábricas e hospitais. Chegando ao Brasil com 40 anos, acompanhado da esposa, Mariana Reif, e da filha, Wanda Elzbieta, ao des
embarcar na cidade do Rio de Janeiro, comentou: "...Fiquei impressionado pela nova arquitetura realizada pelos jovens arquitetos, Lúcio Costa, irmãos Roberto, Reidy e Oscar Niemeyer. O prédio do Ministério da Educação, o Museu de Arte Moderna, no aterro da Glória, Pedregulho, a Associação Brasileira de Imprensa; uma perfeita harmonia entre a paisagem e a arquitetura".
Após um ano de adaptação - um novo país, uma nova língua -, transfere-se para São Paulo, onde passou a trabalhar com alguns escritórios de engenharia. Por ocasião do II Salão Paulista de Arte Moderna, em 1952, Victor Reif enviou um projeto para casa de campo. Sua apresentação em duas pranchas, inovadora pelo emprego da técnica mista de aquarela, colagem e grafite não passou despercebida pelos editores da revista "Acrópole", que o procuraram para a publicação do projeto. Reif consentiu, desde que não colocassem o titulo de arquiteto à frente do seu nome, já que este só lhe foi conferido depois de publicado o projeto na edição 175, no mesmo ano. Reif acredita que a publicação permitiu mostrar seu trabalho e rendeu posteriores solicitações de projetos por parte das construtoras.
Desta época destacamos as lojas Adam's (1956), uma alfaiataria e o Bar e Café União (1957), nos quais o arquiteto projetou a arquitetura de interiores e fachada. Estabelecer o projeto de interiores foi uma especialidade adquirida na Europa, bem como o acompanhamento no canteiro de obras. Essa experiência permitiu ao arquiteto conseguir lojas bem dimensionadas, em lotes reduzidos no térreo de edifícios na área central da cidade. Na Al-faia-taria Adam's, o projeto de interiores valorizou o pequeno espaço disponível. Da mesma forma, o Bar e Café União apresentava um amplo am-biente para o atendimento do público, sem restringir o espaço de trabalho.
Na produção de Victor Reif predominam residências, locadas nos bairros das zonas oeste e sul da cidade de São Paulo, como Brooklin, Vila Nova Conceição e nos Jardins. Já os edifícios se situam numa região mais próxima ao centro, nos bairros de Santa Cecília e Higienópolis. Apenas como referência histórica, esses bairros foram criados ao longo de caminhos que eram utilizados desde fins do século XVIII para escoamento de produtos e riquezas ao restante do Estado e do País. Importante ressaltar que, nos extremos desses caminhos, criavam-se vilas, pequenos pólos de comércio local, onde se estabeleceu a massa trabalhadora da época, como a Vila das Palmeiras (atual Santa Cecília), dos Pinheiros e a de Santo Amaro. As classes mais elitistas - alta e média-alta - procuraram estabelecer-se ao longo dos caminhos que, atualmente, representam boa parte dos bairros nobres da cidade.
Ainda hoje, bairros como os dos Jardins (América, Europa e Paulista) guardam a característica de "bairros elegantes" e onde, portanto, se encontram edificações distintas, de diferentes épocas, mas sempre representativas, que as tornam ecléticas. Além de registrar a passagem dos anos, e se tornarem a principal via de ligação entre os caminhos de Pinheiros e Santo Amaro, eles influíram, conseqüentemente, no loteamento de bairros ao longo da estrada de Santo Amaro: os atuais Jardim Paulista e Jardim Europa (ambos também da Cia. City), Vila Nova Conceição e Brooklin, que passaram a abrigar a mesma população que a do Jardim América

AS RESIDÊNCIAS
A primeira obra do arquiteto, no Brasil, foi realizada em 1954, em São Paulo: residência no Brooklin Novo. Nela, o arquiteto evidencia alguns conceitos que se farão presentes na maioria de seus projetos posteriores, como o emprego de diferentes materiais para composição da fachada; preocupação em isolar a residência, fazendo-a voltar-se para o interior do lote; implantação segundo a orientação norte; dimensão do living e sua relação interior/exterior com o pátio interno e presença da luz natural, tornando a casa plasticamente bem resolvida e agradável aos moradores.
Destacam-se, ainda, as casas da rua Canadá (1955), no bairro Jar
dim América; a A. Huck (1956), na rua Primavera, Jardim Paulista; a Alfredo Liberman (1957), na alameda Uapés, Indianópolis; a Cis José Salmi (1957), na rua João Lourenço, Vila Nova Conceição; a Georges Hanna Khalil (1958), na rua Venezuela, Jardim Europa; residência no Brooklin Paulista (1961), no Jardim América (1969), na avenida Brasil, Jardim América.
A residência de India-nó-polis, localizada num lote de esquina, destaca-se pelo volume suspenso sobre um "muro" que sofre variações, desde o elemento vazado até o vidro translúcido sob o volume. Já nas residências da Vila Nova Conceição e da rua Venezuela, o programa concentra-se no pavimento térreo. Devido à orientação, ambas foram organizadas em "U", proporcio-nando aberturas de diversos ambientes para o pátio-jardim.
A premiada residência da rua Venezuela apresenta ampla área social disposta na parte da frente, fazendo-se notar por entre o gradil de caibros que se estende desde o volume principal até o muro que limita o recuo lateral direito. Entre eles encontra-se a biblioteca, limitada por um jardim interno e o pátio da casa. A biblioteca é percebida na fachada principal pelo seu volume. O gradil, elaborado para proteção da abertura do social à rua, chega até a lateral do lote, criando, na biblioteca, um segundo jardim interno protegido por grades na sua parte superior. Os dormitórios, no lado poste-rior, são elevados três degraus e separados do living por meio de uma galeria onde o arquiteto propôs um bar e a possibilidade de o ambiente se abrir para o jardim interno com espelho d'água. O painel "Galo", de Aldemir Martins, é outro destaque na entrada da sala de jantar.
Finalmente, a residência da avenida Brasil (1969) resulta de um amadurecimento dessa tipologia e programa. Sua presença, como exemplo mo-derno, não foi con-flitante entre os edifícios de época já existentes no entorno. Desenvolvida sobre uma elevação natural do lote, o projeto criou um acesso rebaixado para os automóveis, permitindo uma fachada livre. Usando diferentes materiais, como a pedra, madeira e cerâmica, Reif reforçou a horizontalidade da edificação. Vista em planta, a disposição quase poética dos diferentes níveis que transpõe, do nível da rua à entrada da residência, completa a circunferência iniciada pela jardineira. Um cobogó de madeira isola a abertura da área de estar em relação à rua e integra - embora seja uma barreira física - os diversos pátios internos ajardinados ao jardim da entrada.

OS EDIFÍCIOS
Localizados nos bairros de Santa Cecília e Higienópolis, os prédios refletem as mesmas preocupações que Reif procura atender nas residências: a questão social da moradia, o bem-estar dos moradores, o respeito ao entorno do lote. Algumas características como o duplo pé-direito no pavimento térreo, que segundo o arquiteto, referia-se ao isolamento em relação à rua, são comuns nos edifícios projetados por ele.
O Edificio Michel, de 1954, foi o primeiro projetado e construído. Situado num lote de esquina na rua Dr. Veiga Filho, onde existe um desnível em relação à rua transversal, (rua São Vicente de Paulo), permitiu a Reif criar nos entreníveis as entradas do edifício e da garagem. A partir do nível maior, na rua transversal, constituíram-se 16 apartamentos. Destaca-se a disposição irregular, nos diferentes pavimentos, das aberturas e respectivos blocos de vedação, revestidos de cerâmica.
No edifício Diana, Reif avançou o prédio cerca de 30 cm, a partir do primeiro pavimento, no sentido da rua Maranhão, criando pilares que reforçam o recurso, fazendo-os "saltar" do limite do lote para a calçada. Sendo o lote de esquina, e com grande avanço ao interior da quadra pela rua Itacolomy, Reif optou por recuar o edifício, criando um jardim nessa rua. Com 16 andares, foi projetado para abrigar nos seis últimos pisos apenas um apartamento por andar, mas a construtora manteve essa característica apenas nos três últimos pisos.
O edifício da rua Sergipe foge das características de grande
s fachadas envidraçadas. Uma pequena abertura na face principal deve-se à orientação sul e à vista para o cemitério da Consolação. Situado num lote praticamente vizinho, localiza-se o edifício Itacolomy que, como o Diana, apresenta recuo, permitindo a construção de 10 andares, "pousados" sobre pilares.

ARQUITETO
É possível concluir que a produção de Reif, estudada e projetada para uma cidade tropical, adquiriu conceitos empregados por muitos profissionais da época, destacando Franz Heep e Rino Levi, conhecidos de Reif. Porém, sobressaem na leitura das obras de Reif a preocupação com a relação interior/exterior e com o conforto dos ambientes, bem como o tratamento empregado nas fachadas. Victor Reif poderia estar exercendo a função de projetar ainda hoje, mas com o incêndio de seu último escritório, no Edifício Grande Avenida em 1969, desistiu da prancheta aos 60 anos e aceitou fazer parte do corpo docente da FAU-Mackenzie, a convite de Franz Heep. Já recusara o cargo em várias oportunidades anteriores por falta de disponibilidade, requerida por sua personalidade disciplinada para exercer uma nova função, como a de formar jovens profissionais. Com as perdas ocasionadas pelo incêndio, Reif achou oportuno aceitar o cargo que lhe proporcionou tempo de recuperar e reorganizar seus arquivos de projetos já publicados como única fonte documentada, e poder transmitir sua experiência aos jovens. Durante quase 30 anos, discípulos e colegas puderam constatar que produção e personalidade estão intimamente ligadas, rígidas e exigentes, e, sem dúvida, necessárias para desenvolver qualquer projeto.
Uma arquitetura "introvertida"
CESAR AUGUSTUS DE SANTIS AMARAL
é arquiteto, formado pela FAU-Mackenzie em 1997. Foi organizador da Exposição Victor Reif Arquiteto, realizada em 1996, no Museu da Casa Brasileira.
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